DJ Ang Lo na terra do Povo Sem-Memória.

Sou um cara que estou acostumado a ouvir música. Qualquer tipo de música. Gostando ou não gostando eu ouço, pois até para dizer que não gosto, tenho que ouvir e conhecer. No geral, gosto de quase tudo que eu ouço, pois procuro sempre ouvir sem preconceito, e sem pré-conceito.

Talvez, devido ao que disse a cima, me convidem para ser DJ. Não tenho a técnica de um DJ, não sei fazer scratch... na verdade, não sou um DJ, mas um discotecário, mas acho que essa palavra já entrou em desuso, por isso me intitularam DJ.

Apesar de não ter preconceito, tenho preferência por Rock, e principalmente Reggae. Sobre esses estilos, estudo muito e conheço bem... Normalmente, sou chamado para tocar nas festas esses estilos sonoros. Mas uma vez, me chamaram para tocar Funk...

Não Funk, como os da década de 70... James Brown, Sly e George Clinton, mas Funk Carioca, a “evolução” (entre aspas mesmo!) do Miami Bass. Como já falei anteriormente, não tenho preconceito, até aí nada de mais! Na verdade era uma festa que tinha a finalidade de agradar gregos & troianos, então me passaram um cronograma:

- De “tal” até “tal” hora, você toca rock, de “tal” até “tal” hora, MPB, de “tal” até “tal” hora, samba (e alguns pagodes, pra minha infelicidade!), e finalmente, de “tal” até “tal” hora, para encerrar com chave de ouro, você toca Funk!

Quem me conhece sabe que, por mim, teria tocado todos os ritmos misturados, pois adoro uma mistureba. Ouvir muito tempo o mesmo estilo de som, às vezes, me incomoda. Mas tudo bem, trabalho é trabalho.

No início correu tudo bem, até a hora que comecei a colocar na vitrola o que, a meu ver, é samba (e acho que muitas pessoas concordam comigo, exceto algumas que estavam naquela festa). As pessoas mais antigas, mais maduras, levantaram e começaram a dançar, enquanto os mais jovens, torceram o nariz. Tudo bem, eu tinha o apoio de parte do público, que continuou se divertindo. Entre um clássico e outro do Samba, mandei uns pagodinhos para não ficar totalmente mal com a moçada, que levantava o polegar em minha direção como quem agradece. Mas, o tempo do Samba passou, e o fim da festa estava se aproximando, e chegou a vez do Funk.

Nessa hora, coloquei uma vinheta que narrava o início de um baile, usado por uma equipe de som antigamente, na época em que eu freqüentava bailes Funk, mas foi só pra quebrar o clima do Samba e mudar de ritmo. Ao término da vinheta, o tamborzão entrou em ação! Ali naquela pista, desfilou todos os grandes hits que faziam as meninas rebolarem seu popozão até o chão. A pista ficou lotada, a juventude estava em frenesi, quando de repente tive a maldita idéia: “Acho que é hora de largar um clássico!” Então saquei um cd do Steve B. e botei pra rolar o clássico Spring Love. O pessoal mais velho, ao ouvir a introdução inconfundível, que inclusive antigamente era trilha sonora das brigas entre galeras, o famoso pampamti-pampamrampam, abriram o sorriso, enquanto as novinhas e novinhos saiam aos poucos da pista. Percebendo isso, convoquei o Créu, e este fez com que a pista se enchesse novamente. Então resolvi sacar da cartola, mais um clássico, só que mais recente que Spring Love. O rap do Salgueiro surgiu nos alto-falantes. A 15 anos atrás, ninguém pararia de dançar, uma vez que isso fosse tocado no baile. Mas na era atual, teve o efeito contrário. Na pista, permaneceu uma meia-dúzia de gatos pingados. Tive que apelar mais uma vez, e puxar mais um hit do momento, e mais uma vez a pista se encheu. Entre sons politicamente corretos, proibidões e pornográficos, a juventude se divertia, mostrando-me que eles realmente não escutavam o que as músicas diziam, mas como que por instinto, obedeciam ao impulso de rebolar, somente por que esta ou aquela batida, havia sido gravada em seus jovens HDs, devido ao excesso de vezes que eram tocadas nas rádios, lavando seus cérebros. Então, pela última e derradeira vez naquela noite, resolvi por mais um clássico: “que tal o Rap da Morena?” Assim mesmo fiz. A maioria se sentou, alguns foram embora, mas apesar de ter feito isso de sacanagem, uma coisa me desconcertou:

- Pô DJ, só tocou música velha! – Resmungou uma guria, assim que comecei a abaixar o som que devido a falta de pessoas na pista começava a reverberar muito no salão.

A medida que o som ia abaixando com o fim da música, as palavras daquela guria ficavam ecoando na minha cabeça. “As pessoas não têm a menor noção de que a música é atemporal. Pela aparência, aquela menina não era tão nova a ponto de não conhecer os sons que eu toquei. Ela simplesmente renegou o passado, assim como a maioria, como se ele não existisse.

Enquanto arrumava minhas coisas para ir embora, fiquei pensando em como era triste admitir, mas aquela frase clichê, de que o brasileiro é um povo sem memória, é verdadeira. O povo brasileiro não tem carinho nem mesmo com as lembranças que lhe foram agradáveis, que dirá com outros assuntos mais complicados como política e economia.

Cabisbaixo, peguei meus discos e segui meu rumo...

Ang Lo


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